Crianças na Inglaterra Vitoriana

Crianças na Inglaterra Vitoriana

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Escrever um romance de época, para mim, foi um desafio a parte. Isso porque eu iria, pela primeira vez, escrever sobre um mundo que existiu e eu não conheci. Ia escrever sobre uma realidade que não vivenciei e sobre hábitos e costumes que ignorava. Para mim, que exijo verossimilhança nos meus trabalhos (inclusive nos que leio), isso representava horas de pesquisa sobre cada detalhe que eu quisesse incluir na história.

A primeira pesquisa foi ler muitos romances de época. Paralelamente, eu também desenvolvia meu plot e iniciava as buscas sobre situações quotidianas, como o vestuário das pessoas (principalmente das mulheres), as cores da moda, a decoração, os lugares e até mesmo a forma como se concebia e criava filhos.

Em Um Duque para Chamar de Meu, minha protagonista é Elizabeth Collingworth, uma viúva com dois filhos. Elizabeth é jovem (casou-se muito cedo) e pobre, muito pobre. Ela conhece o Duque de Shaftesbury por um acaso do destino e isso a coloca entre dois mundos, por um tempo. Para que os meninos de Elizabeth, Patrick e Peter, tivessem uma caracterização correta, eu pesquisei bastante.

E fiquei bastante desapontada. Primeiro, porque a realidade era triste. Segundo, porque nos romances que eu li, essa realidade tinha sido ligeiramente alterada – exatamente para ficar menos triste.

Dei-me a liberdade de alterá-la um pouco, também. Mas, nessa postagem, vou apresentar como as crianças na Inglaterra Vitoriana eram tratadas, tanto as das classes altas quanto as pobres, e deixar vocês com algumas imagens e histórias que eventualmente partiram meu coração.

As crianças ricas, principalmente da aristocracia britânica, viviam com muitas riquezas materiais e pouquíssimo – ou quase nenhum – afeto paterno e materno.

Segundo o site VictorianChildren.org, as crianças nascidas nas famílias ricas eram criadas por babás e tinham pouco contato com os pais e mães, apenas em momentos específicos do dia. Nas casas havia inclusive uma ala infantil, o espaço onde as crianças eram “confinadas” durante todo o dia e noite, para não se misturarem com os adultos.

Aí pensamos: ah, mas as babás eram as mães que essas crianças não tinham, afetuosas e gentis. Não. Isso não era verdade para a maioria delas. Babás eram geralmente mulheres que não se casaram e, consequentemente, não tiveram filhos. Eram muitas vezes excessivamente rígidas e até mesmo um pouco cruéis.

Ah! Mas, nos livros, o que vemos é diferente. Na maioria dos romances de época de Julia Quinn e Lisa Kleypas, por exemplo, vemos famílias aristocratas cuidando das crianças. Mantendo-as consigo e sendo pais e mães amorosos. Na série dos Bridgertons, Violet é uma mãe maravilhosa e ela e o Visconde criaram os filhos de forma diferente, cuidando diretamente deles e dando amor e carinho. Da mesma forma que os filhos e filhas repetiram esse comportamento com sua prole.

O mesmo acontece na série As Quatro Estações do Amor, em que vemos Lillian, a condessa de Westcliff sendo maternal com a filha pequena. Até mesmo o ex-devasso/libertino/sedutor mais perfeito dos romances de época, Sebastian St. Vincent, nos derrete com os cuidados com a primogênita.

Só que isso foi inserido nos romances como uma exceção às regras, como uma forma de enaltecer ainda mais o caráter dos personagens e de mostrar um ponto de vista. Afinal, acreditamos que crianças precisam receber amor e cuidado, principalmente dos pais. Há estudos sérios realizados nessas áreas, mas esses estudos são bem mais recentes, não se discutia sobre isso na época em que essas histórias aconteceram.

Para as crianças pobres, a realidade era diferente. Menos qualidade de vida, mais proximidade com a família.

Como as pessoas pobres na Inglaterra Vitoriana eram realmente pobres, e viviam em condições muito precárias, as crianças nascidas nessas famílias moravam em casas muito pequenas, às vezes que continham apenas um cômodo. Dessa forma, elas eram criadas e cuidadas por seus pais e mães, e por irmãos e irmãs mais velhas.

Nem sempre isso traduzia em amor e carinho. Segundo o VictorianChildren.org, as crianças pobres eram muitas das vezes vistas como uma forma de aumentar a renda familiar e, com isso, seus pais tinham até 10 filhos, que usariam para trabalhar e aferir renda.

E sim, as crianças pobres trabalhavam. E em condições absurdamente precárias, sem que nenhum cuidado com sua segurança ou saúde fosse tomado. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, em 1824 foi criada uma lei de proteção animal, criminalizando os maus tratos praticados contra animais. Apenas em 1891 foi criada lei semelhante para a proteção às crianças, demonstrando que os britânicos estavam mais preocupados com a segurança dos bichinhos.

As crianças pobres eram geralmente mal nutridas e precisavam trabalhar longas horas em trabalhos perigosos (como limpadores de chaminés, por exemplo). Se não trabalhassem, muitas não podiam comer.

O DailyMail, jornal britânico, reuniu uma série de fotos antigas de crianças vitorianas em situação de extrema vulnerabilidade. Crianças que eram recolhidas e enviadas ao LSPCC, o centro de proteção às crianças de Liverpool. Algumas são gráficas, quem quiser conferir a matéria é só clicar aqui.

Em Um Duque para Chamar de Meu, as crianças de Elizabeth, Patrick e Peter, são muito pobres. Elas não trabalhavam porque a mãe acreditava que os meninos mereciam um futuro melhor e ela mesma conseguia provê-los, com muita dificuldade. Infelizmente, essa não era a realidade da maioria dos meninos da Inglaterra Vitoriana. Em outro post, falaremos sobre educação e trabalho para as crianças vitorianas.

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