Capítulo segundo

Aquele estava sendo um péssimo dia, e não ficou melhor quando ameaçaram derrubar a porta de Nathaniel. Ele levou cinco minutos para perceber que havia alguém na entrada principal, depois outros cinco para sair do torpor que o uísque em excesso o colocara. Mais algum tempo para confirmar que as calças estavam abotoadas e que a camisa tinha ao menos uma parte dentro da faixa abdominal. Como ele não usava uma faixa abdominal havia meses, Nathaniel decidiu que estava pessimamente apresentável para quem estivesse à sua porta às nove da noite.

E, depois de uma conversa que não lhe fez sentido algum, a visitante estava nua em seu salão de entrada. Não, não estava nua, mas o que ela vestia não podia ser considerado adequado em nenhuma ocasião – talvez se ela fosse uma prostituta e estivesse trabalhando, mas nem assim, já que as prostitutas de Madame Beaufort usavam vestidos elegantes e perfeitamente talhados.

A visitante era uma mulher de cabelos cacheados e que estavam despretensiosamente presos em um coque deselegante, indicando que não se arrumara para sair. Os olhos castanhos pareciam muito escuros na pouca luz, da cor da nogueira ou do álamo, ele não tinha certeza. Se a visse na rua talvez não a notasse. Se fosse a um evento em que ela estivesse, dificilmente aquela mulher atrairia a sua atenção. Nathaniel estava acostumado a ter as melhores mulheres à sua disposição, portanto poucas o interessavam realmente.

Mas ela estava nua. Quase. Em suas roupas íntimas, pedindo para ser arruinada.

— Creio que eu tenha bebido uísque vencido. — Foi a conclusão óbvia, ele estava bêbado e não consumira o melhor malte. — O que mesmo a senhorita deseja?

— Desejo ser arruinada, senhor.  — Ela se repetiu com a voz trêmula. — Estou com um casamento marcado com um velho inglês babão e não desejo que ele se realize. Se estiver arruinada, meu futuro marido me recusará e meu pai me enviará para algum lugar onde ficarei livre. Sei inclusive de um refúgio para mulheres solteiras, ou com problemas para se casar, que fica na Inglaterra. Adoraria ir para lá e…

— Senhorita. — Nathaniel usou uma das mãos para interromper o fluxo desordenado de palavras e se abaixou para pegar a capa dela, pendurando-a em um cabide que ficava ao lado da porta. Ela o observava com assombro e estupefação, mas ele estava acostumado a causar sentimentos estranhos nas pessoas. — Não entendi uma palavra do que disse e não me interesso por seus problemas. Como chegou até aqui?

— Eu caminhei.

Nathaniel não percebeu que estava muito perto dela até dobrar o corpo para frente para exalar seu perfume. A mulher tinha as costas quase apoiadas na parede do salão de entrada e cheirava a almíscar – uma fragrância comum, mas que, misturada com o cheiro da roupa íntima que ela vestia, fez com que ele perdesse o pouco de razão que possuía no momento. Sem pudor algum, porque ele não costumava ter nenhum, Nate aproximou-se mais e a beijou ali na curva do pescoço, fazendo com que a mulher estremecesse.

A prudência gritou que deveria se afastar. Não sabia quem era a senhorita e não levava mulheres desconhecidas para a cama. Ele era Nathaniel McFadden, não precisava se arriscar com uma completa estranha. Mas havia alguma coisa naquele cheiro e naquela pele macia que o hipnotizou. Também poderia ser a meia garrafa de uísque que bebera, mas não fazia diferença – aquela mulher era desejável e ele a desejava apenas porque estava seminua à sua disposição. Sem afastar a boca do pescoço dela, Nathaniel entreabriu os lábios e passou a língua discretamente pela tez ligeiramente salgada pelo suor. Ela estava nervosa.

Subiu a boca, traçando uma linha até o maxilar tenso da mulher e passou o polegar pelos lábios dela, que se abriram em seu toque. Nate ergueu a cabeça para olhá-la e encontrou uma mulher rendida, de olhos fechados, completamente deslumbrada por seu toque. Ele era bom, mas não tanto. Aquela não era uma prostituta nem parecia entediada e à procura de aventuras. Talvez ela estivesse falando a verdade, e o senso de decência que ele não tinha sugeriu que perguntasse.

— Como a senhorita disse que se chama?

Ela piscou algumas vezes e olhou para ele, um pouco envergonhada. Suas bochechas estavam coradas pela excitação e Nathaniel tinha certeza que ela também corara em outros lugares – que ele adoraria explorar, assim que soubesse quem diabos ela era.

— Eu não disse. Meu nome é Lucille Smith.

Foi a vez de Nathaniel piscar e a encarar. Não era possível que aquela mulher ali, quase desfalecida em seus braços depois de um simples toque, fosse a filha mais velha de Walter Smith.

— A senhorita é filha de Walter Smith?

— Sim.

— Céus. — Ele passou uma das mãos pelos cabelos. Se aquela era uma brincadeira, era de péssimo gosto. — Certo, vou acordar meu cocheiro. Ele a conduzirá para sua residência.

— O senhor não está entendendo. — Ela o interrompeu. — Tive muito trabalho para tomar essa decisão e vir aqui, hoje. Não pretendo retornar sem obter o que vim buscar.

— Sua ruína?

— Sim, senhor.

Ela era louca, talvez devesse chamar as autoridades sanitárias, mas não pretendia que ninguém soubesse que aquela mulher estava ali, nem por equívoco. Não havia nada que ele pudesse querer menos do que se envolver outra vez com Walter Smith, um homem que só perdia em crueldade para o seu próprio chefe.

— Meu Deus. — Nathaniel deu uma risada nervosa. — Srta. Smith, sabe para quem trabalho, não sabe? — Ela assentiu, muda. — Então a senhorita sabe que meu chefe é um dos homens mais poderosos de Nova Iorque, não é mesmo? — Ela assentiu novamente, apenas balançando a cabeça. — Talvez a senhorita não saiba que existe apenas um homem com poder o suficiente para fazer frente ao meu chefe, e esse homem é Walter Smith. Por isso, eu estarei morto e enterrado antes de criar qualquer tipo de desentendimento com o seu pai sem um justo motivo. A senhorita vai recolocar essa capa e voltar pelo mesmo caminho pelo qual veio, fingindo nunca ter batido à minha porta.

Lucille olhava para Nate como se não acreditasse no que ele dizia ou se estivesse planejando uma forma de convencê-lo a mudar de ideia. Nem mesmo ele acreditava que dispensaria aquela mulher bonita e que se oferecia seminua para seu deleite. Uma virgem, que ele poderia conquistar como um desbravador, fincando sua bandeira e podendo dizer que ela sempre se lembraria dele, não importasse quantos homens tivesse. Nathaniel dificilmente recusaria uma noite de sexo, principalmente já estando ligeiramente excitado como estava.

Mas ela era um perigo ambulante, com aquela pele exposta, aquele corpo intocado e aquele sobrenome imponente. Precisava ir para casa e fingir que nunca esteve ali, pois ele tinha problemas demais para lidar e aquela mulher era um inconveniente desinteressante.

— Sr. McFadden, eu não pretendo ir. Não me casarei com aquele marquês.

— E não sabe que o homem que arruína uma mulher precisa casar-se com ela? A senhorita por acaso preferiria se tornar minha esposa?

Nathaniel girou no próprio eixo para mostrar-se para a jovem senhorita e exibir sua falta de atratividade. Ele sabia que era bonito, sedutor para as mulheres, mas não tinha nenhum outro atributo que o pudesse classificar como um bom partido. Ao contrário, ele era um péssimo partido em geral, não servia para se casar.

— Não! — Ela pareceu entender a gravidade do que ele falara. — Não pretendo desposá-lo também, senhor, mas o procurei exatamente porque, de todos os homens possíveis, imaginei que fosse o único que não teria honra ou moral para se sentir obrigado a casar depois de deflorar uma virgem.

A mulher era impressionante. Ela tinha uma aparência virginal e ingênua, mas falava palavras indecentes que nunca deveriam sair da boca de uma mulher pura. E estava absolutamente correta, Nathaniel não tinha mais honra suficiente para se ver obrigado a casar com uma mulher apenas por tê-la desvirginado. Céus, que tipo de canalha ele se tornara desde que viera para Nova Iorque? Só que aquela mulher, especificamente, não estava disponível para sua cama. Além de noiva – e isso representava arrumar confusão com um marquês qualquer que ele não sabia quem, ela era filha de um homem poderoso. Se havia uma coisa que Nate aprendeu nos Estados Unidos foi que causar distúrbios com quem detinha o poder deveria ser um movimento muito calculado.

— Converse com seu pai, mas não poderei ajudar. Se a senhorita não quiser minha ajuda e se arruinar até o caminho de volta para casa, não será mais problema meu, apenas não serei responsável por isso.

— Mas eu estou me oferecendo para ser deflorada.

— E eu estou recusando sua oferta.

Mesmo achando que estava ficando louco em expulsar aquela mulher insana de sua casa, Nathaniel sabia que fazia a coisa certa. Não era acostumado a agir corretamente, mas não tinha motivos altruístas – ele pensava nos negócios, em primeiro lugar, e em como era ruim provocar gente como Walter Smith. Sem cerimônias, abriu a porta e esperou que uma atônita Lucille passasse para poder colocar uma barreira entre eles. Não estava tão excitado assim que não pudesse se controlar e precisava livrar-se daquela maluca.

Insultada e humilhada, era como Lucille se sentia na manhã seguinte à sua tentativa frustrada de encontrar a ruína com o mais notório canalha de Nova Iorque. Olhou-se no espelho demoradamente e tentou descobrir o que ela tinha de errado para não ter incitado Nathaniel McFadden a seduzi-la.

Os olhos eram castanhos, não tinham o brilho colorido do verde ou do azul. Os cabelos cacheados estavam sempre com a aparência de terem sido o ringue de uma luta entre pássaros muito irritados. A empregada sonhava em amansá-los com ferro, mas Lucille sentia-se uma completa tola quando tinha os cabelos penteados daquela forma. Acostumara-se com os cachos livres e um pouco rebeldes, mesmo que eles nunca estivessem na moda. Acreditou que seu visual pouco atraente devia ter repelido o interesse do Sr. McFadden, pois homens como ele estavam acostumados às maiores beldades em suas camas.

A ideia de estar na cama dele fez com que um calafrio lhe percorresse o corpo. Lucille nunca foi uma jovem muito ingênua, ela adorava conversar sobre indecências com as amigas. Elas falavam de romances, homens e atributos masculinos quando se reuniam para o chá, enquanto fingiam que tratavam de temas como bordados e tecidos. Seus pais jamais saberiam que elas fofocavam sobre como a calça do Sr. Stone ficava justa na coxa, ou como aquele botão aberto no pescoço do Sr. Jones deixava um amplo espaço para a imaginação. Só que as amigas foram se casando, uma a uma, com os sujeitos das conversas de toda tarde, e ela permaneceu solteira.

Uma solteirona, para horror de Walter e Constance Smith. Suas duas irmãs mais novas já estavam casadas, enquanto ela, aos vinte e sete anos, continuava esperando. O que Lucille esperava, nem ela mesma sabia – só sabia que não se casaria com um marquês velho e barrigudo cujo único interesse nela seria seu dote.

— Senhorita, seu pai deseja vê-la.

A empregada bateu à porta e fez com que Lucille saísse de seus devaneios. Não dava mais tempo para bancar a feia por quem ninguém se interessava, pois ela tinha quase certeza que os homens não a queriam por ser uma criatura indômita. Não era sua aparência física que os afastava, era seu espírito livre.

  — Peça a ele que me espere para o desjejum. Vou me vestir.

A empregada saiu e Lucille terminou de se despir, tomou um banho rápido no chuveiro de seu quarto, escolheu um vestido adequado para um dia fúnebre e desceu as escadas. O pai a aguardava no salão onde a família costumava fazer o desjejum, lendo o jornal. Como não havia mais ninguém ali, ela teve certeza de que o assunto que seria tratado não era de seu agrado. Walter Smith preferia conversar com os filhos e filhas como se estivesse gerindo uma de suas empresas, e algo dizia a Lucille que ele estava ali para dar uma notícia ruim.

— Sente-se e coma. — O pai disse, apontando para uma cadeira ao lado da sua. — Tenho algo importante para dizer. Eu e sua mãe fechamos negócio com o Marquês de Hertford e ele está vindo a Nova Iorque para obter sua mão e casamento.

Lucille serviu uma xícara de café preto e mordiscou uma torrada para conseguir refletir sobre o significado da frase. O pai acreditava que estava contando a ela uma novidade, mas não conseguiu fingir surpresa. Sua preocupação era: precisava conseguir tempo

— Parece que vocês já têm tudo ajustado.

— Certamente que temos, esse é apenas um comunicado oficial. O marquês é um nobre honrado, possuidor de um título sólido, e será um acréscimo valioso para a família. Tenho certeza que gostará dele quando o conhecer.

— E quando será isso, meu pai?

— Recebi uma carta do marquês ontem, mas você já estava recolhida em seu quarto. Ele avisou que chega em duas semanas.

Daquela vez ela precisou de mais esforço para não parecer totalmente abalada pela informação de que tinha apenas duas semanas para conseguir se livrar daquele casamento arranjado. Seu primeiro plano dera errado, não conseguiu ser arruinada pelo homem mais indecente que já ouvira falar. O que podia fazer, arrumar outro? Talvez houvesse outros que não tivessem senso moral suficiente para querer desposá-la depois de deflorá-la, mas sempre havia a sombra de Walter Smith.

O pai era um homem mau e rico, e o dinheiro comandava o mundo. Ao menos era o que ele dizia todo dia, quando tinha a oportunidade de expor o quanto seu dinheiro podia comprar de tudo – desde comida até maridos.

— Meu pai, é mesmo necessário que eu me case com esse marquês? Ele… ele precisa de um herdeiro?

— Não, mas precisa de dinheiro. — O pai colocou o jornal de lado e virou-se para ela. — Lucille, você está encalhada e é uma vergonha para sua família. Não importa mais com quem vai se casar, desde que case. Um marquês trará honra e dignidade para nós e ajudará meus negócios.

Ela engoliu a comida que colocara na boca e o bolo de alimento desceu amargo. Claro que o pai falaria de negócios, e aproveitaria a oportunidade para deixar evidente que ela era uma solteirona, para todos os aspectos. Isso machucava mais do que a imposição de um casamento infeliz. Com um sorriso sem graça, Lucille assentiu fingindo que aceitava as determinações de Walter Smith e terminou seu desjejum. Em seguida, pediu licença e se retirou para a casa da única amiga solteira que ainda podia ouvir seus dramas sem julgá-la por não ter um marido e pelo menos três filhos aos vinte e sete anos.

Usando a carruagem da família, foi até a casa de Millicent, na Rua Eldridge. O pai tinha um carro, um veículo extravagante que não precisava ser puxado por cavalos, mas ninguém podia usar, apenas ele. Era um objeto de luxo que lhe servia mais para exibir a grandeza da riqueza dos Smith e que estava fora do alcance dos meros mortais. Lucille mesmo não se importava, ela preferia o sacolejar da carruagem com o qual já estava acostumada.

— Meu Deus, Lucy. Você está com uma cara péssima! As coisas não deram certo com o Sr. McFadden?

Milly a recebeu no jardim, enquanto estava ajoelhada no meio de um canteiro de rosas. Segurando uma pá, a amiga estava suada e seu chapéu ameaçava cair. Era uma visão deselegante, mas aquela era Millicent em sua melhor forma: uma jovem que não se importava sinceramente com a aparência.

— O que a faz pensar que não deram certo?

— Eu sempre sei essas coisas, Lucy. — Milly levantou-se e ajeitou o chapéu com a mão suja de terra. Uma marca marrom apareceu nas fitas que o enfeitavam, mas ela pareceu não ligar. — E, pelo que ouvi falar do homem, se ele for metade do que dizem as fofocas, você estaria sorrindo de orelha a orelha. Vamos sentar e você vai me contar tudo.

Sim, ela contaria tudo e pediria ajuda. Talvez duas cabeças tivessem ideias melhores do que apenas uma. Depois que Milly lavou as mãos na fonte do jardim, sentaram-se em uma mesa de ferro que ficava debaixo de uma árvore frondosa e Lucille despejou toda a sua frustração com o Sr. McFadden e a notícia da chegada do marquês.

— Céus, você é ainda mais louca do que pensei! Como você me sai andando nua pelas ruas, Lucy!

— Eu não estava nua! E fale baixo, não é para que saibam disso, não pretendo ser publicamente arruinada.

— Pensei que o objetivo fosse exatamente esse.

— Não, eu apenas queria ser deflorada. O tal marquês não iria querer uma donzela que não fosse mais virgem, não é mesmo? Homens nunca querem.

Milly olhou para os lados e garantiu que ninguém estava por perto para escutá-las.

— Depois que conversamos, andei fofocando e talvez você possa estar enganada. Fiquei sabendo de algumas damas recatadas que entregaram suas virtudes para cavalheiros que não se tornaram seus maridos. E, ainda assim, conseguiram casamentos valiosos. O dinheiro compra a honra, Lucy, e seu pai tem dinheiro sobrando. O seu plano…

Poderia ter sido inútil. Ela não tinha pensado nisso, na hipótese do marquês a aceitar mesmo arruinada. Sua ama sempre dissera que homens nunca ficavam com mulheres defloradas por outros homens e era nisso que acreditava. Mesmo assim, Milly parecia muito segura do que dizia, e Lucille sentiu-se tola. Ela esteve a ponto de entregar-se a um canalha devasso que a usaria como um objeto descartável e, talvez, mesmo depois disso, ainda seria ser obrigada a se casar com um homem que tinha o triplo da sua idade.

— Preciso de outro plano.

— Espero que não esteja considerando outro canalha para deflorá-la.

— Eu disse outro plano, Milly. Algo que me salve desse casamento horroroso.

— Já tentou conversar com seu pai sobre isso?

Lucille olhou para a amiga em completo desalento. Como ela podia sequer considerar que uma boa conversa não fora sua primeira tentativa de dissuadir o pai daquele casamento? Ela tentara todas as artimanhas que imaginara, desde supor que era estéril até decidir bater à porta de um notório canalha para ser deflorada por ele. Tudo que pode, antes, obviamente, fora exaustivamente testado. Talvez ela fosse uma tola ou incompetente, mas atirar-se na cama de um homem horrível com Nathaniel McFadden seria certamente sua última opção em qualquer situação. E, nem assim, ela conseguira livrar-se do problema.

— Você me ofende em pensar que não fiz isso, ainda.

— Desculpe, minha querida. É que, sinceramente, não vejo uma luz. Só se você fugir.

No instante em que disse aquilo, Milly apertou os lábios com força, como se sua sugestão fosse tão absurda que sequer devesse ser dita em voz alta. Lucille a fitou com olhos arregalados por alguns poucos instantes até que a ideia lhe fizesse algum sentido. Fugir. Ela não tinha para onde ir e empreender fuga sendo uma mulher a deixava totalmente vulnerável. Mesmo assim, se não houvesse outra saída, aquela teria que servir.

— Você irá no recital dos Jameson?

Lucille voltou de suas divagações e olhou para a amiga. Apesar da amizade, ela não deveria deixar Milly saber que fugir era uma via elegível para se livrar do problema “casamento arranjado”.

— Claro, se eu não for minha mãe terá uma apoplexia. Mesmo que eu esteja de casamento marcado com um marquês, para eles não é suficiente. Sempre devo aparecer linda e gentil para todos verem como somos uma família amorosa e perfeita.

E era claro que não eram, mas Lucille não queria falar sobre aquilo no momento. Discutir o quanto sua família vivia de aparências era um desperdício de tempo, pois nada mudaria. Para Walter e Constante, o que importava era o que se mostrava aos outros – e ela estava tão farta daquela vida que estava prestes a cometer uma loucura qualquer para livrar-se dela.

— Então, nos veremos lá. Pensaremos em uma nova tática para você escapar desse futuro desagradável, Lucy.

A amiga segurou as mãos dela e sorriu, encarando-a com um olhar doce e sincero. Milly era uma jovem extraordinária e tinha uma ótima vida, pois seus pais não a importunavam com casamentos nem a obrigavam a ser uma caçadora de títulos. Tinham muito dinheiro, amavam-se e criaram filhos felizes, cujas opiniões e desejos eram respeitados – o oposto de seus pais, o contrário de sua criação. Lucille suspirou, desejando que a amiga tivesse razão e que elas conseguiriam, juntas, pensar em uma solução.

Saraus, bailes, recitais e outros eventos daquele estilo eram insuportáveis para Nathaniel. Ele gostava deles, quando vivia em Londres, mas apenas quando estava interessado em alguma dama que poderia arrastar para os jardins. Seus objetivos em eventos da sociedade sempre foram beber, jogar e beijar mulheres em alcovas escuras ou áreas descobertas isoladas. Como descobriu que clubes e antros de jogatina ofereciam exatamente a mesma coisa sem o preço de precisar lidar com a desonra de alguma virgem, foi gradualmente trocando as celebrações tradicionais pelo submundo da diversão londrina.

Em Nova Iorque, Nathaniel fugia de recitais. Não havia nada que o assustasse, nada que lhe causasse medo, mas ele odiava o tédio que aquele tipo de evento causava. Então, não fazia a menor ideia do que estava fazendo no recital dos Jameson.

— Pela décima vez, você sabe que ele nos queria aqui. Pare de reclamar.

Leonard entregou a ele uma taça de champanhe e fez uma careta, indicando que deveria beber.

— Ele deveria vir pessoalmente. — Nate virou a taça em um só gole, fazendo com que as bolhas estourassem em sua garganta. — O que tem aqui de importante?

— O anfitrião.

— Jameson está devendo?

O amigo assentiu, olhando ao redor. Leonard sempre sabia de tudo sobre todos, ele era o guardião dos segredos. O chefe colecionava segredos de grandes figurões da cidade a fim de mantê-los sob seu controle. Aparentemente, garantir que todos lhe devessem muito dinheiro não era suficiente. E o anfitrião da noite, Neil Jameson, era o que se podia chamar de homem rico. Se estava devendo ao chefe, alguma coisa estava errada com suas finanças.

— Não se preocupe, não vamos cobrá-lo, apenas intimidá-lo.

— Espero que essa intimidação não dure a noite toda. Gostaria de comer alguma coisa antes de dormir.

— Há comida aqui, Nate.

— Não falei nada sobre comida.

Leonard quase cuspiu o champanhe que levara a boca. Nathaniel pegou outra taça de uma bandeja e também a virou em apenas um gole, desejando ficar bêbado ao ponto de não se entediar. Se precisavam intimidar Jameson, então considerava flertar com uma das filhas – se ele descobrisse quem eram, ou causar uma cena desagradável com algum convidado ilustre. Como era um recital, não haveria dança, graças a Deus.

Enquanto estudava a dinâmica do que faria ali, viu chegar uma pessoa que atraiu sua atenção. A família Smith entrava pelo salão principal e era cumprimentada por todos. Atrás dos pais, a figura de Lucille Smith não se destacava em relação a nenhuma das damas presentes. Usava o cabelo preso no alto da cabeça, com alguns cachos caindo pela lateral de seu rosto, e um vestido violeta com renda e bordado. Uma mulher comum que não causaria nenhuma impressão marcante, se ele já não a tivesse visto em suas roupas íntimas.

Ela era bonita, mas parecia se esforçar para esconder sua beleza com cores enjoativas e a ausência de uma expressão facial confiante. Não o surpreendia que os pais a estivessem vendendo a um marquês falido como mercadoria barata.

— Você ouviu uma palavra do que falei, Nate?

A voz de Leonard o trouxe de volta à realidade.

— Não.

— O que tem na família Smith?

— Ontem a filha deles me visitou.

Visitou? — Leo virou os olhos na direção da jovem Lucille e tentou imaginar o que aquele anjo virginal poderia querer com um completo canalha. — Conte-me essa história.

Nathaniel contou. Bebeu outra taça de champanhe e arrastou Leonard para um canto do salão e despejou sobre ele o episódio que se resumia em Lucille Smith em sua casa, tarde da noite, apenas em roupas de baixo. Explicitou a parte em que ele a recusava apenas por que ela era filha de Walter Smith, não porque estava ficando louco de dispensar uma mulher desejando ser seduzida.

— Quem diria que ela seria tão atrevida. Se não fosse pelo pai dela, eu mesmo me ofereceria para salvá-la.

— Se não fosse pelo pai dela, ela já estaria totalmente arruinada. Talvez umas três vezes arruinada.

— Que azar o chefe ser tão rigoroso com os jogos que podemos jogar. — Leo começou a se mover. — Vamos circular por esse recital, não pretendo ficar para confirmar se os músicos sabem realmente tocar.

Os amigos se separaram e começaram a abordar convidados. Todos ali sabiam quem eram, mas eles transitavam normalmente como o segundo filho de um marquês e o terceiro filho de um conde. Os americanos desenvolveram, naquela época, um certo fetiche por títulos e pela nobreza britânica, fazendo com que muitos homens desejassem casar suas filhas com duques, condes, viscondes, entre outros títulos. Mesmo que Nathaniel fosse um completo canalha e alguém que tinha perdido boa parte dos valores morais da sociedade civilizada, ele era sempre admitido nos melhores salões por causa de sua linhagem.

Depois de petiscar na mesa do brunch e de beber quase uma garrafa de champanhe, o que não era suficiente para o embriagar, Nathaniel foi para a sacada externa quando a música começou. Seu senso de dever não era tão leal assim que o faria acompanhar uma exibição de violino e piano apenas para demonstrar a Jameson que ele estava ali. Leo, que era mais erudito e sabia fingir melhor, manteria sua presença enquanto ele fumaria um cigarro olhando para o luar. Ah, que coisa cafona.

O que ele precisava era de informações. Já mobilizara metade de Nova Iorque para descobrir sobre Emile. Seu irmão não estava morto, não podia estar. De todas as burradas que Nate fizera desde que chegou aos Estados Unidos da América, ele não admitiria ser o responsável pela morte de seu irmão, mesmo que não tivesse puxado o gatilho. Se Emile estava vivo, fora levado pelo oceano para algum lugar – e ele descobriria que lugar era esse. Alguém deveria saber de um inglês ferido por arma de fogo que não foi reportado à polícia.

Enquanto se concentrava em seus próximos passos, Nathaniel sentiu uma presença e um aroma que ele definitivamente não deveria reconhecer – até porque se tratava de um cheiro comum entre mulheres americanas. Almíscar.

— A senhorita não pode ser vista sozinha comigo. — Disse, sem virar-se para olhar a mulher que se aproximava e encostava na balaustrada ao lado dele.

— A porta do salão está aberta e, em minha defesa, não fazia ideia de que o senhor estaria aqui.

Nathaniel olhou sutilmente para ela. Srta. Lucille Smith, a aparição da noite anterior.

— Isso me deixa aliviado, pensei que a senhorita me perseguia. Devo temer por minha segurança?

— Não deboche de mim. — Ela rosnou em baixa voz. — Eu não preciso ser mais humilhada do que já fui.

— Ninguém sabe do que houve. Eu mesmo não me lembro direito de nada, portanto não leve isso muito a sério.

Era mentira, ele se lembrava melhor do que deveria. Não porque ela era interessante, mas porque qualquer mulher que se exibisse seminua para ele deixaria uma marca. Não, aquilo também era mentira. Algo na ousadia e na coragem de Lucille era admirável, e Nathaniel respeitava aquilo. A maioria das mulheres da classe social dela era como as damas inglesas – insossas, insípidas, totalmente previsíveis. Não serviam nem mesmo para aventuras sexuais, pois elas não sabiam o que fazer e o deixavam ligeiramente entediado por ter que ensiná-las.

— O senhor é totalmente grosseiro. Arrependo-me de ter-lhe feito qualquer oferta.

— Seu arrependimento está registrado. Adeus, Srta. Smith.

A jovem se afastou, pisando forte no chão com suas sapatilhas de dança. Nate deu uma última tragada em seu cigarro e continuou contemplando o céu por algum tempo até ser interceptado por Leonard.

 — Nossa missão aqui acabou. Jameson está mais pálido do que cera de vela e creio que ele entendeu qualquer recado que o chefe tenha querido passar.

— Ainda bem, já estava exausto de não fazer nada e posar de homem íntegro para esses janotas irritantes.

Leonard encostou ao lado dele e entregou um bilhete, antes que Nathaniel pudesse se virar para ir embora.

— Agora posso entregar-lhe isso. Precisava que estivesse concentrado essa noite.

O bilhete estava rabiscado em uma caligrafia horrorosa, certamente masculina, e continha algumas informações. Aparentemente, alguém com a descrição de Emile fora visto em Norwalk, Connecticut. Não apenas a descrição física batia, mas também o fato de que a pessoa fora encontrada na praia entre a vida e a morte.

— Quem lhe entregou isso?

— Um informante deixou no clube, hoje de tarde. Você estava ocupado, eu recebi.

— Seu maldito. — Nathaniel virou-se para o amigo com as mãos em punhos. — Eu poderia estar na metade do caminho para Norwalk, a essa hora.

— Exatamente, e eu precisava de você aqui, hoje.

— Sabe que, um dia, eu vou partir a sua cara no meio. E não vai demorar muito.

— O que pretende fazer? Vai mesmo para Connecticut atrás de uma pista cuja autenticidade não podemos confirmar?

— Prometi encontrar Emile e farei tudo que estiver ao meu alcance para isso, inclusive seguir pistas anônimas. Amanhã parto, tenho uma carroça pronta na estação esperando para essa ocasião.

Enfiando o papel no bolso, Nathaniel apagou o cigarro na balaustrada e saiu, deixando o maldito recital sem se importar em despedir-se ou cumprimentar ninguém. No dia seguinte, conversaria com o chefe e pediria uma folga, ou se demitiria, dependendo de como estivesse seu humor. Seria um pequeno problema viajar estando na mira da polícia, pois ele não poderia pegar o trem. A forma menos extravagante para chegar a Norwalk era de carroça pelas vias vicinais, assim corria menos riscos de ser notado. Ele poderia ir a cavalo, mas um animal não aguentaria aquela viagem e Nathaniel não podia arriscar se hospedando em estalagens de beira de estrada.

Maldição, ele precisava traçar uma estratégia, e isso significava que teria que ir para casa – sóbrio e sozinho. Seria a segunda noite que dormiria sem uma mulher em sua cama e não fazia ideia de quando veria uma se contorcendo debaixo de si, novamente. Emile era o foco – apenas o irmão importava naquele momento. Ele podia ter sido destruído naquele ano nos Estados Unidos, mas o amor por sua família não se alterara.

Esse capítulo ficou grandinho. Mas, vamos lá… tem mais gente incomodada com o Leo, aqui?

Agora que Nate tem pistas do Emile, vamos ver se ele consegue descobrir nosso McFadden perdido. Afinal, não queremos que ele esteja morto, queremos?

Nos vemos amanhã!

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Sara Vasconcelos

Esse Leo é um tremendo de um bobão. Que egoista . Com raiva ja. Essa ida atras de Emile ja esta me dando teorias. hehehe. As aventura de Nate e Lucille….hahaha

Victória Terasawa

Achei que a Lucy ia pedir ajuda pro Nate pra fugir mas ele se comportou como um ogro… Tomara que p Nate ache o Emile e seja inocentado. Mas e a aparição do resto da família nessa trama? Como o Edward ainda não apareceu em Nova Iorque pra tirar satisfação com o Nate?

Gabriella Zane

Acredito que alguém mais vai aparecer nessa carroça no dia seguinte… 😍

Helena Paglione

uuummmmm quem e o chefe? e se o pai de Lucille e tao perigoso assim tb e do submundo do crime!
Outra coisa Leo ja estava em NY antes de Nate certo?
entaooooooooo
vamos as conspiracoes!

Michelle Gil

Oh gente coitada kkkk, só quem já foi rejeitada sabe como ela se sentiu 😂😂, mas fica tranquila bebê, ele vai te querer sim com certeza, a primeira flecha foi lançada!! E esse Leonard 😒😒 baba ovo do chefe! Essa viagem promete!!

Amanda Regina

Mas gente, Leo precisa a agir mais como amigo… Só acho!
Agora Nate, meu querido, vamos nos preparar para essa fuga, se precisar de ajuda pode me chamar 😉
E eu já adoro a Luci kkkkk

Tania Mareto

Aposto que ela ouviu essa conversa e vai se esconder na carroça dele. Veremos. Mas se o Nate beijasse e lambesse meu pescoço, sei não, acho que agarrava ele e abusava dele.

Ines Freitas

ahhh gente eu to gostando do leo simmmm rsrsrsrs
acho que ele é misterioso e focado!!! ele é centrado…. foca no objetivo….
e no fim, ele cuida dos negocios, do trabalho, e do amigo!!!!
se ele fosse um fdp falso ele nao teria entregue o tal bilhete…. ou será que é uma pista falsa????? hmmmmmm conspirações….
eu acho que Srta. Smith vai plantar nesta carroagem na manhã seguinte kkkkkk
Tadinho do Nat pra resistir a moçoila de olhos castanhos! hahahahha
chega logo amanhãaaaaaa vou morrer kkkkkkkkk

rosa maria sgrignoli

Pelo jeito foi esse Leo quem levou o Nate para a bandidagem, mas ele entrou porque também não é boa coisa né… tadinha da Lucille, espero que ela se livre dos pais, do marquês e por enquanto do Nate também.

Carla Cerveira

Esse Léo… não me pareceu um amigo tão fiel assim, veremos..
Creio que Nate terá uma surpresinha na carroça amanhã kkkkkk

Simone Chelio

Ainda estou curiosa para saber como a Lucille vai conseguir parar com o Nate! Vai fugir com ele? Estou adorando a história!!

Ivone Zeigler

E o canalha não tem honra mas tem medo… muito bem Nate…

Lucile está realmente decidia a não casar… E sim… vamos matar o Leo… mas… não sei… tenho uma queda pelos secundários… Ele não presta.. mas Nate também não… vamos aguardar… tipo a música…🎵🎵🎵🎵 você nao vale nada mas eu gosto de você…🎵🎵🎵🎵

Selma Motta

Senti um clima meio “Sebastian” no Nate..
Adooooro!

fabia

Lucille e suas conversas sobre indecência…. Pensando em fugir
Nate indo atrás de Emile….
Combinação perfeita e talvez até explosiva.
Essa viagem promete!!!!

Cássia R. Batista

Eu gosto do jeito profissional do Leo… Adorei saber que tem uma chance do Emile estar vivo e que o amor do Nate permanece o mesmo

Cássia R. Batista

Tô vendo que sou a única pessoa que passa pano para o Leo, as vezes temos omitir informações ipara os amigos… É triste, mas é a realidade

Last edited 18 dias atrás by Cássia R. Batista
Paulina Pereira

Baita amigo esse Leo ein…
Quem precisa de inimigo desse jeito.

Nadege Cavalcante

Será que nosso Nate vai ter companhia de uma certa donzela que está desesperada pra não casar e quer fugir? Já querendo saber o que vem no próximo capítulo. Bjs

Layza Silva

Fiquei tão concentrada no plano de fuga da Lucille que nem prestei atenção que eu devia ficar brava com o Leo ksksks
Mas realmente, q cara safado mano
Bate nele, Nate