Capítulo quarto

Ele estava tão louco quanto a mulher maluca que cruzara seu caminho com ideias irracionais de defloramento e fuga, mas, quando a viu sendo agredida por aqueles animais, não conseguiu ignorar. Nathaniel já se tornara especialista em desprezar o sofrimento das pessoas e não se importar com nada que não fosse lhe trazer ganhos e satisfação pessoal. O que acontecia de ruim com os outros não era problema seu, não o afetava – então, por que diabos resgatara aquela maldita mulher que só servia para atrasá-lo em sua missão?

Não tinha nada a ver com ela ser bonita, porque ela não era. Ao menos, nada como as mulheres com as quais Nathaniel estava acostumado. Aquela ali tinha cabelos sempre desgrenhados, parecendo um ninho de pássaros mal construído, quadris largos demais, e seios menores do que sua preferência. Inferno, ele não deveria pensar novamente nos seios dela, mas foi impossível evitar quando Lucille retornou de seu banho com uma camisa branca, um pouco úmida, sem o artifício que estivera usando para escondê-los.

— Obrigada pela camisa. Ficou um pouco maior do que a outra, mas é bem mais cheirosa.

— Pode ficar com ela. Está com fome?

Ele estava faminto, mas totalmente distraído. Pegou a cesta com comida e colocou pães e frutas sobre uma toalha, oferecendo a ela uma das facas que carregava consigo. Lucille atacou novamente os alimentos e acabou fazendo com que ele precisasse comer, ou não sobraria nada.

— Desculpe. — Ela limpou o canto da boca com as costas da mão. — Não estou acostumada a ficar sem comer, fazemos refeições regulares e com horários muito rígidos na casa Smith.

— Tenho certeza que sim. A senhorita não pensa que se arrependerá de fugir e viver sem aquele luxo e aquela fartura? Porque, mesmo que tenha trazido dinheiro, em algum momento ele acabará. O que pretende fazer?

Lucille ajeitou-se, sentando-se sobre as pernas, e afofou os cabelos curtos com as mãos.

— Pretendo trabalhar, senhor.

— A senhorita já trabalhou alguma vez na vida? — Ela respondeu que não à pergunta, e Nathaniel deu uma risada cínica. — Talvez a prostituição não seja mesmo uma ideia ruim.

— O senhor não precisa me ofender. Eu posso nunca ter trabalhado, mas estudei em boas escolas e sou muito capaz. Com certeza aprenderei qualquer ofício que precisar e conseguirei me sustentar até juntar dinheiro para fugir para a Inglaterra.

— Não pretendia ofendê-la, mas sou realista e não vivo em um mundo de contos de fadas, como a senhorita viveu até agora.

— Realista como o terceiro filho de um conde? Explique-me, senhor, como pode um nobre ser tão realista?

Lucille o encarava com deboche e Nathaniel entendia bem aquela expressão – costumava usá-la com frequência. Geralmente, as pessoas achavam que ele, por ser nobre, vivia em uma redoma dourada. Era verdade, por muito tempo a sua vida fora despreocupada – o dinheiro aparecia à sua frente, mesmo que ele não o merecesse. Mas a sua ida para os Estados Unidos o mudou completamente. Quase completamente.

— Não sou o terceiro filho de um conde, sou um dos diretores de um antro de jogatina. Algumas situações nos levam ao limite, Srta. Smith, e, quando cruzamos esse limite, perdemos todas as nossas referências.

Ela permaneceu olhando para ele com uma expressão de quem não sabia se o entendia. Nathaniel esperava que ela permanecesse em silêncio, mesmo que suas dúvidas persistissem. Não estava interessado em conversar, menos ainda com ela, porque não queria admitir que Lucille Smith o afetava de alguma forma. Ele mal a conhecia e tudo que sabia era que se tratava de uma mulher rica, nascida nas Américas, desgostosa com um casamento por conveniência. Mas ele nunca vira uma que fugiu de casa e abandonou a vida que tinha apenas para se livrar desse mesmo casamento. Aquilo fez com que ela se tornasse interessante – determinada, teimosa e audaciosa.

Mesmo com o silêncio, pelo qual agradecia, o fim da luz do dia fez com que ele precisasse acender uma fogueira. Recolheu madeira ao redor, montou uma contenção de pedras e usou sua pederneira para fazer fogo. Lucille permaneceu ali, fitando-o, observando-o, olhando para a barraca, para a fogueira e para ele próprio. Nathaniel estava acostumado a ser escrutinado por mulheres, mas todas elas o faziam porque desejavam o levar para a cama – e ele não fazia ideia do que pretendia Lucille.

— Há animais selvagens por aqui? — Ela perguntou, por fim.

— Creio que sim, mas eles não se aproximarão por causa do fogo.

— Entendo. E poderei usar algum cobertor para dormir? Ficarei enrolada nele, perto da fogueira.

Ele olhou para a tenda – era muito pequena e ela sabia. Não pensava em convidadas quando separou o que precisava para viajar. Olhou então para a carroça, cuja extensão era satisfatória para caber uma pessoa deitada e acomodada. Deveria mandar que ela dormisse em qualquer lugar que não o incomodasse, mas era provável que aquela mulher o estivesse afetando mais do que ele pretendia admitir.

— Durma na barraca. Ficarei na carroça.

— Não… quero dizer, o senhor não precisa fazer isso. Talvez eu possa caber na barraca com o senhor.

Nathaniel deu uma risada. Ela era bastante tola se considerava que aquela era uma opção segura.

— Srta. Smith, se dormirmos nós dois ali dentro, duas coisas acontecerão: a senhorita conseguirá a ruína que deseja e não chegaremos a dormir, efetivamente. Portanto, como estou exausto e preciso viajar um dia inteiro, amanhã, creio que nosso melhor arranjo seja esse – fique sob a proteção da tenda, eu não terei problemas em dormir com os rapazes.

— Rapazes?

— Zeus e Hades, os cavalos.

Ela arregalou os olhos e fitou os cavalos escuros, que pareciam ainda mais pretos à pouca luz. Sem dizer mais nada e agradecendo com uma mesura, enfiou-se dentro da tenda e o deixou finalmente sozinho para poder refletir sobre aquele grande erro que estava cometendo. Claro que era um erro – tanto envolver-se na fuga daquela desvairada quanto não se aproveitar dela.

Acomodou-se sobre a carroça e Zeus o cutucou com a cabeça, pedindo que lhe coçasse atrás das orelhas. Cavalos eram mais confiáveis e interessantes que pessoas, por isso Nathaniel sempre preferia a companhia dos animais. Depois de subornar o equino com um torrão de açúcar, enrolou-se no cobertor e tentou adormecer – sem sucesso. Rolou de um lado para o outro, apertando a cabeça, na tentativa de pegar no sono, mas frustrou-se por horas. Sentou-se, verificou se Lucille estava dentro da barraca ou se, por milagre, decidira atirar-se em seus braços, e voltou a deitar. Ela não se atiraria em seus braços – ele teve a oportunidade de a ter e recusou. Por que ela o iria querer novamente?

E, por que diabos ele estava desejando que ela o quisesse? Aquela era apenas uma mulher, uma nem tão linda, e totalmente inconveniente. Assim que chegassem à primeira cidade, arrumaria uma prostituta para satisfazer aquele desejo ridículo e se livraria da bagagem extra que só estava servindo para atrapalhar.

Depois de atacar o cantil de uísque e beber mais da metade, acabou sucumbindo ao cansaço. Despertou com Zeus lambendo seus cabelos – aquele cavalo tinha sérios problemas com limites – e com cheiro de café. Ergueu o corpo para espiar por sobre a contenção da carroça e vislumbrou Lucille ajoelhada ao lado da fogueira, que ela alimentara com fogo, coando café.

— Bom dia, Sr. McFadden. — Ela se ergueu com uma caneca de metal fumegante em uma das mãos. — Preparei para o senhor, espero que esteja do seu agrado.

Lucille sorria, francamente, e estendeu a caneca para ele. Nathaniel acreditou que ainda não tivesse acordado, sentia a cabeça latejar e os olhos embaçados – mas os dentes de Zeus em seus cabelos indicavam que sim, ele estava desperto.

— A senhorita sabe cozinhar, Srta. Smith?

— Não, na verdade eu apenas sou observadora. Já vi café sendo preparado, assim como o vi alimentar o fogo ontem. Havia comida em sua cesta, também, portanto tomei a liberdade de preparar um desjejum completo. Venha comer!

Nathaniel virou um gole do café quente, que estava horrível de tão ralo, mas ela sorria ainda e, por motivos que ele sinceramente não imaginava quais seriam, não quis magoá-la. Fez uma careta, indicando que gostara e desceu da carroça, empurrando Zeus para o lado. O cavalo relinchou, bufando, enquanto Hades ignorava completamente a existência de pessoas. Depois de passar as mãos pelos cabelos, fechar o colete e dobrar os punhos da camisa até os cotovelos, sentou-se ao lado da fogueira. Ainda era bastante cedo e ele sentia como se não tivesse dormido nada.

— Imagino que teve uma noite boa. — Perguntou, mastigando um pãozinho. Não sentia fome, mas aprendera a comer para manter-se resistente.

— Havia alguns mosquitos, mas, fora isso, foi uma noite agradável. Eu agradeço sua gentileza de me permitir dormir na barraca.

Ela tinha o olhar baixo, evitando encará-lo. Nathaniel pode notar marcas avermelhadas no pescoço dela, outras nos braços. Não foram alguns mosquitos, talvez uma nuvem deles. Se não fosse a tenda, talvez Lucille tivesse sido carregada pelos insetos. Ele conhecia um bálsamo bom para picadas, mas não trouxera consigo. Não importava, precisou repetir de novo – não importava que ela estivesse picada, ferida ou que seu sangue escorresse pelos poros. Não deveria importar.

— A senhorita vai… quero dizer, a senhorita pretende continuar se passando por homem?

— Creio que seja prudente. — Ela o fitou. — Uma mulher é um alvo muito vulnerável.

— Então imagino que seja melhor… — Nate apontou na direção dos seios dela. — escondê-los.

— Ah.

Lucille cruzou os braços na frente do corpo, visivelmente envergonhada. Ela provavelmente não prestara atenção no quanto aquela exata parte de sua anatomia estava evidente – e no quanto ele se via atraído para ela toda vez. Constrangida, levantou e se escondeu dentro da barraca, provavelmente para fazer o truque que a permitia esconder os atributos femininos. Nate praguejou, talvez devesse ter ficado de boca fechado ou se oferecido para ajudar – e isso não seria nada bom para sua decisão de mantê-la afastada.

Apesar do café estar ruim, Nathaniel bebeu duas canecas cheias para se manter alerta. Eles tinham um bom pedaço de estrada pela frente e pelo menos duas paradas seriam necessárias antes de chegarem a uma cidade. Aquela ainda seria uma longa viagem.

Confortável demais com o diabo, era como ela estava. Lucille precisava deixar de ser tola, ou não duraria nem um minuto sozinha onde quer que fosse. Estava nervosa quando tirou a camisa e recolocou a faixa para esconder os seios, o que mais parecia uma tortura. Não que usar espartilhos e todos aqueles acessórios das mulheres fosse totalmente agradável, mas, com eles já estava acostumada. Suas bochechas ardiam como fogo pelo comentário inocente do demônio encarnado com quem viajava, e isso só demonstrava que era melhor que se separassem. Por mais cavalheiresco que o Sr. McFadden tenha se mostrado, ele era um predador e ela estava mais para um cordeiro sacrificial. Se quis que ele a deflorasse antes, aquela ideia mudara depois que precisou fugir.

Quando saiu da barraca, ele já arrumara tudo de novo na carroça e estava apagando o fogo.

— Vou desmontar a tenda e retomaremos a viagem. — Ele disse. — Sabe como atrelar os cavalos?

— Sei selá-los, mas nunca atrelei em uma carroça.

— Certo, então ajude-me aqui. Hades é quieto, mas ele não perderá a oportunidade de fugir, se a tiver.

Nathaniel estava sem colete e com vários botões abertos na camisa. Ao contrário dela, ele não parecia ter nenhum pudor em exibir-se e não se constrangia ao percebê-la o observando indecorosamente. Porque sim, ela o estava observando. Precisava ocupar a cabeça com outras bobagens que não o peito cabeludo e os braços fortes daquele homem.

— Por que dizem que o senhor matou seu irmão?

Ela disparou, enquanto apoiava as estacas que ele desenterrava. Só depois percebeu que estava sendo absurdamente inadequada.

— Porque ele desapareceu e eu estava com ele.

— Não parece um motivo muito convincente para acusar alguém de assassinato.

— E não é, tanto que estou aqui, não estou?

O sorriso cínico estava de volta e ela percebeu que o assunto o incomodava. Afinal, o irmão era o motivo daquela viagem e Lucille suspeitava que as razões para o encontrar fossem mais profundas do que simplesmente se livrar das acusações. A tensão exibida no maxilar dele indicava que estava nervoso por falar sobre aquilo. Ele talvez gostasse da família, talvez amasse o irmão desaparecido.

Terminaram de desmontar a tenda e logo estavam sobre a carroça de novo, que deslizava pela via cheia de mato. Aquela era uma estrada vicinal, indicando que Nathaniel pretendia viajar escondido, ou chamar pouca atenção para si. Para ela, era o ideal, pois Lucille apostava que seu pai já estava enviando os cães atrás dela. A paisagem, no entanto, era bucólica e repetitiva, fazendo parecer que estavam andando em círculos.

— Por que está nervosa?

Nathaniel perguntou, sem sequer virar para olhá-la.

— Não estou.

— Suas pernas estão tremendo e você fica esfregando as mãos. Está nervosa. Sou pago para perceber as pessoas, Srta. Smith, e descobrir suas fraquezas faz parte do meu trabalho.

Ela suspirou, desanimada. Era péssima em disfarçar-se, sempre transparente como uma vidraça polida. Não conseguia se passar por um homem, não conseguia esconder o que sentia nem se fosse para salvar sua vida. Como pretendia fugir sozinha?

— Imagino que meu pai não aceitará minha fuga e enviará pessoas para me levar de volta.

Ele riu e ela se pegou admirando-o. O que estava acontecendo, Lucille? Tudo em Nathaniel McFadden gritava perigo, havia questões muito maiores em jogo do que a beleza do homem. Mesmo que ela estivesse, antes, disposta a oferecer-se a ele em uma bandeja de prata, não era mais justificável que o fizesse.

— Quer dizer que, em breve, haverá capangas em seu encalço? Capangas contratados por Walter Smith?

— Sim, muito provavelmente, sim. Não posso deixar rastros para que eles me encontrem.

Nathaniel não pareceu abalar-se por seus dramas e continuou conduzindo os cavalos pela via. O silêncio se abateu sobre eles mais uma vez ela nada pode fazer senão passar a observar as belas ancas dos cavalos e a paisagem, que parecia não mudar enquanto seguiam seus caminhos.

O mordomo entrou no escritório de Walter Smith às oito da manhã, visivelmente constrangido de incomodar o patrão naquele horário. O industriário não era muito conhecido por seu bom-humor de manhã.

— Sr. Smith, sua esposa lhe deseja falar. Pediu que o senhor a encontrasse no salão matinal.

O homem ergueu o olhar dos documentos que analisava e não disse nada. Com um gesto de mão, indicou que o empregado podia sair. Não gostava de ser incomodado quando trabalhava, mas a esposa não costumava solicitar sua presença. Ao contrário, quando estavam em casa, ela preferia ignorá-lo e manter-se o mais longe possível. Não que se importasse, Walter já precisava tolerá-la durante os eventos e quando estavam em público.

Ao chegar ao salão matinal, encontrou Constance alterada. Ela andava pelo espaço vazio enquanto duas empregadas mantinham a cabeça baixa e os braços cruzados atrás do corpo.

— O que houve para que me incomode antes do desjejum?

— Lucille não dormiu nessa casa.

Walter Smith parou onde estava. Levou a mão ao bigode e enrolou uma das pontas nos dedos.

— O que quer dizer com isso?

— Ela não está em seu quarto e ninguém a vê desde ontem.

— Certamente está na casa dos irmãos ou daquela amiga solteirona, a Srta. Ryan.

— E acha que já não mandei que a procurassem em todos esses lugares, meu senhor?

Pelo destempero no comportamento de Constance, não se tratava de exagero ou engano. Walter podia não suportar muito a esposa, mas sabia que ela era uma mulher extremamente controlada e nunca perdia a linha na frente de ninguém – nem dos criados. Naquele momento, ela se exibia com cabelos desfeitos e alterava ligeiramente a voz.

— Algo dela sumiu? — Virou para as empregadas, interrogando-as.

— Nenhuma roupa, senhor. Nem as malas, nem os sapatos. Está tudo perfeitamente no lugar.

— Então ela não fugiu.

— Por que fugiria? — Constance perguntou e seu olhar cruzou com o do marido. Foi quando ela percebeu que a filha já fora informada oficialmente do noivado e que ele suspeitava que Lucille não estivesse muito satisfeita com a notícia. — Meu Deus, Walter, acha que ela iria embora para fugir de seu noivo? Céus, ela estará arruinada!

— E acha que não sei? Precisamos descobrir o quanto antes o que aconteceu – se ela foi sequestrada, pedirão resgate.

Sequestrada? — Constance desabou em uma poltrona e uma das empregadas correu para socorrê-la, abanando-a com o avental. A outra foi buscar chá. — Precisamos encontrar Lucille, Walter!

— É o que farei. Dê-me o tempo que preciso. Enquanto isso, ninguém ficará sabendo que nossa filha está desaparecida. Para todos os efeitos, ela está adoentada. Se alguma visita aparecer, Lucille tem febre pois pegou um resfriado.

A situação era grave e requeria medidas extremas. Walter Smith não fazia ideia do que podia ter acontecido, mas, se sua esposa dizia que a filha não estivera em casa, é porque não estivera. Precisava de discrição e diligência. Se fora um sequestro, pois muita gente poderia querer atingi-lo por meio de sua família, ele a resgataria e mataria os envolvidos. Ninguém ameaçava um Smith e ficava vivo para passar a história adiante. Se fora uma fuga, Lucille seria encontrada e amarrada em seu quarto até a chegada do marquês – e ninguém ficaria sabendo, pois não podia arriscar que o noivo pensasse que ela estava arruinada.

Ao chegar ao seu escritório, pegou o telefone e fez uma chamada para o escritório de George Dawson.

— Dawson, preciso que cancele sua agenda de hoje e venha me encontrar em casa.

— Bom dia, Sr. Smith. Não posso cancelar minha agenda, tenho alguns trabalhos que precisam de minha atenção.

— Delegue para qualquer capanga que esteja sob seu comando. Eu pagarei o triplo do que qualquer um ofereceu.

— Chego em meia hora, senhor.

Situações urgentes pediam medidas desesperadas. Aquele era o melhor investigador particular que o dinheiro podia comprar – esperto, atento aos detalhes e sem escrúpulos. Walter não sabia nem mesmo por onde começar a procurar Lucille, então precisava envolver alguém mais capacitado. Dawson seria capaz de a encontrar e a devolver para casa mesmo que tivesse cruzado o oceano.

O industriário pediu que seu desjejum fosse servido no escritório e, assim que o investigador chegou, o recebeu com uma pequena refeição e café. Também havia uísque, para caso o assunto se tornasse de difícil digestão. Pedindo que Dawson se sentasse, Walter explicou sobre o desaparecimento de Lucille e pediu que ela fosse encontrada.

— Entendo que pense que ela foi sequestrada, senhor, mas precisa considerar a possibilidade de fuga. Mulheres são criaturas muito impulsivas.

— Não quero pensar em hipóteses, Dawson, para isso estou te contratando. Pouco me importam as possibilidades, apenas traga minha filha de volta em até dez dias. Preciso que esteja aqui para o maldito noivado, não achamos marqueses à venda em prateleiras. Sabe o quanto a influência do futuro marido dela pode me fazer lucrar?

— Imagino que seja muito, senhor. Mas fique tranquilo, traremos sua filha, não importa onde ela esteja. Para isso, precisarei de recursos.

— Tem todo dinheiro que precisar. — Walter Smith foi até um cofre que ficava meio escondido atrás de sua mesa e o abriu, pegando um maço de notas. Fez algumas contas mentalmente e colocou a quantia dentro de um envelope. — Isso deve dar para começar. Assim que precisar de mais, ligue-me e providencio a entrega.

George Dawson abriu o envelope e contou o dinheiro, satisfeito. Walter sabia que era mais do que suficiente para contratar alguns homens e, caso fosse preciso, comprar algumas informações. Lucille voltaria para casa, mesmo que ele mesmo a buscasse.

O pandemônio comum na McFadden Garden se transformara em quase silêncio absoluto naquele dia. Desde que alguns telegramas foram entregues ao Conde de Cornwall e seus irmãos Isaac e Wilhelmina, informando que uma tragédia se abatera sobre a família, eles se reuniram para confabular planos e iniciaram os protocolos do luto em respeito a Emile McFadden.

O texto dos telegramas era o mesmo e não fazia sentido algum para eles. As autoridades americanas informavam que Emile, o homem mais jovem da família McFadden, fora assassinado pelo outro irmão, Nathaniel, mas ninguém acreditava realmente naquilo. Nate era um fanfarrão que adorava a vida noturna e só pensava em bebidas e mulheres, mas nunca fora um homem cruel e, certamente, não era capaz de assassinar ninguém – quanto mais seu próprio irmão mais novo.

Mesmo assim, algo devia ser feito. Emile estava morto e Nathaniel acusado de um crime. Acostumados a agir sempre em favor da família, uma reunião acontecia para decidir os próximos passos dos McFaddens.

— Eu vou para Nova Iorque. — Edward, o Conde de Cornwall, decidiu. Em seu escritório em Londres estavam o irmão remanescente, Isaac, o cunhado Grant Sawbridge, marido da única irmã, Wilhelmina, e o Duque de Shaftesbury, o melhor amigo nobre do conde. — Pegarei o navio que parte hoje e descobrirei o que está havendo.

— Há muitas implicações em sua ida, Edward. Nate dificilmente se abrirá com você.

— Não me importa se ele se abrirá ou não, eu extrairei a verdade nem que o obrigue a falar.

— Creio que seja disso que seu irmão esteja falando. — Sawbridge serviu conhaque para todos. — Se algo grave aconteceu, agir como o irmão mais velho e conde talvez não ajude a descobrir a verdade. Eu posso ir.

— Não, você se casou há pouco tempo e está com um bebê pequeno em casa. Eu vou.

Isaac decidiu, virando um gole do uísque.

— Você também tem um bebê em casa.

As esposas de Sawbridge e Isaac deram à luz com menos de dois meses de diferença, pois o segundo filho de Isaac nasceu prematuro. O parto foi difícil e Caroline provavelmente não poderia mais ter filhos, já que seu útero sofreu lesões, mas eles já tinham dois meninos saudáveis e lindos. Sawbridge e Wilhelmina também tiveram um menino, que fora batizado de Joseph.

— Eu sou o melhor amigo de Nate, nós sempre fomos muito próximos. Se tem alguém com quem ele falará, esse alguém sou eu. Precisamos trazer o corpo de nosso irmão para ser enterrado em ao lado de nosso pai, Ed, e precisamos salvar o outro da forca. Não quero perder os dois.

Dois minutos de silêncio significaram que os homens pensavam.

— Acha que consegue resolver isso sozinho?

— Sempre fui seu melhor administrador. — Isaac sorriu, mas por dentro estava em agonia e isso era visível. — Sawbridge, posso pedir que Caroline fique em sua casa com as crianças?

— Ela pode vir para cá também, Isaac. — O conde ofereceu.

— Claro que sim, mas Caroline não aceitará sair de casa sem um motivo. Imagino que Sawbridge e Wilhelmina terão mais argumentos para a convencer. Ah, não importa, contanto que ela não fique sozinha nesse tempo em que eu estiver fora.

— Ela não ficará. — O duque, até então em silêncio, colocou a mão no ombro de Isaac. — Nossa casa também está à disposição e tenho certeza de que a duquesa ficará muito feliz em ter uma missão que não represente fiscalizar crianças.

— Não temos culpa se vocês decidiram repovoar a Inglaterra, meu amigo. — Edward fez uma piada, mas todos estavam tensos demais para rirem. — Então está decidido, você irá para Nova Iorque, Isaac. O navio parte hoje, será tempo suficiente para que arrume tudo e se despeça de sua família?

— Terá que ser. Caroline entenderá, ela também tem uma família grande e faria qualquer coisa por eles. Sem contar que ainda precisamos descobrir o envolvimento de Leonard Eckley nisso tudo – ele e Nate não estavam juntos?

— Estavam. Vou providenciar uma viagem a Kent para conversar com Granville sobre isso. Boa viagem, meu irmão.

Edward levantou-se e abraçou Isaac por tempo suficiente para demonstrar afeto sem que ambos chorassem. A perda de um McFadden estava sendo dura demais e eles precisavam entender o que estava acontecendo. Estavam a apenas um oceano de distância de descobrirem.

Parece que nosso canalha já admitiu que Lucille o afeta – e ela acho que nunca negou isso hehe. A viagem continua, vamos seguindo rumo à primeira cidade, Stamford. Ainda teremos mais obstáculos pelo caminho para alongar essa viagem, será?

Mas a confusão nem começou a acontecer ainda. Walter Smith já sabe que a filha sumiu e não vai medir esforços para recuperá-la. Ainda, Isaac McFadden está indo para Nova Iorque!! Ah! Alguém estava com saudades desses homens? Euzinha aqui! 

Amanhã teremos mais. Digam o que esperam ver acontecer no capítulo cinco!!

Quem estiver a fim de surtar mais sobre os capítulos lá no grupo de facebook tem um tópico específico para isso, podem ir chegando, pegando a pipoca para se divertirem com o escândalo que aprontamos por lá =) Só clicar aqui e pedir para participar! 

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Michelle Gil

Eita!!! O pai cruel ta indo atrás da filha, tomara que demorem a encontrar nossa Donzela!! To nervosa, e que saudade dos nossos outros Deuses 😍😍😍

Carla Cerveira

Luci que se prepare porque o pai está disposto a tê-la de volta a qualquer custo
Que delícia ter novidades desses homens maravilhosos e nossas beldades ❤️❤️❤️

Last edited 17 dias atrás by Carla Cerveira
Jennifer Rossatto

Eita que agora o negócio pega fogo!

fabia

Ai gizuis…. que venha a emoção. Espero algo como beijos roubados e talvez algo mais.

Tania Mareto

O meu Isaac apareceu! E Nate vai ser o canalha mais amado, ele é delicioso

Nadege Cavalcante

E a treta vai começar kkkkk se seguram pois vem muita confusão pela frente. Ansiosissima já pra saber o que vai acontecer. Bjs

Cássia R. Batista

O Nate cada dia está melhor e mais querido e malicioso com a Lucille… Adorooooo…. Acho que no próximo capítulo eles dormirão juntos na pousada… Amei todos reunidos para decidir o que fariam…

Amanda Regina

Primeira coisa que eu tô amando ter capítulos todos os dias.
Segundo que estou vendo que a coisa vai ficar mais divertida! E sim estou morrendo de saudades dos outros novinhos, a coisa com o Grant é muito recente e ainda não me recuperei.

rosa maria sgrignoli

O Isaac é muito do bem, deveria ter ido o Grant, afinal a América está infestada de bandidos! Tô preocupada 🤔

Victória Terasawa

Ainda não me recuperei desse capítulo. Ansiosa pra ver o Isaac nos Estados Unidos. Esse livro tá com uma dinâmica bem diferente dos outros, to adorando.

Last edited 17 dias atrás by Victória Terasawa
Paulina Pereira

Que capítulo ein, to amando!!
Tadinha da Caroline, deve ter sofrido muito no parto, sdds dela, livro maravilhoso…
Que venha as tretas, amém kkkkk

Layza Silva

não sabia que o Leonard era um Eckley, que babado.
Nem lembro quem ele é, mas tutu bem.
Cadê as bitoca desse casal ein?
Sdds desses homi, tudo junto numa sala só, que coisa linda
(As definições de animal fofo foram atualizadas: ZEUS)

Gabi Avila

Fico imaginando se fosse o Duque (que não entra em pânico porque que é um Duque) e o Conde (assassino) que nunca fica desalinhado a irim ao resgate de Nathaniel que m NY.
Não iria sobrar pedra sobre pedra nas Américas🤣🤣🤣🤣🤣