O SOBREVIVENTE E A PRINCESA

Série Amores em Kent - livro seis

Prólogo

O fogo crepitava na fogueira naquela noite fria de outono. A lua, alta no céu, indicava que já era muito tarde – as crianças dormiam aquecidas e aninhadas aos seus pais, dentro das cabanas. Todas as crianças menos uma – Hurit. Seus olhos brilhantes encaravam as sombras que as mãos astutas do xamã faziam no chão gelado, ilustrando a profecia que contava. Chogan, seu pai, também estava sentado ao redor do fogo, enrolado em uma pele de lobo que o fazia parecer maior e mais ameaçador. Depois de uma longa explicação sobre águias, falcões e espíritos ancestrais, o xamã terminou sua narrativa com as orientações dos deuses para a tribo. O chefe agradeceu e se ergueu para recolher-se com sua família, mas o velho profeta tinha mais alguma coisa para ela.

— Hurit. — O xamã lhe estendeu a mão. — Sente-se ao meu lado.

Chogan assentiu e permitiu que a filha ficasse. Apesar da juventude de seus doze verões, Hurit era responsável e madura. Nasceu princesa de um reino que não existia mais e aprendera a conviver entre dois mundos – o dos brancos invasores e do seu povo Shinnecock. Desde muito criança frequentava a escola das missões e era obrigada a aprender a língua deles, a cultura deles e elevar preces ao deus branco. E, quando voltava para casa, aprendia a língua, a cultura e a religião dos Shinnecock.

— O que há, velho sábio?
— Os espíritos falaram comigo sobre você.
— E é importante?
— Tudo que dizem os espíritos é importante, minha criança.
— Como sabe que era sobre mim?
— Porque eu sei, Hurit. Os espíritos conversam comigo e eu apenas transmito a mensagem.
— E há uma mensagem para mim?
— Para mim, mas falando de você e de sua missão para com nosso povo. Você já teve a visão, Hurit?

Ela estremeceu enrolada no cobertor. Aquele era um assunto que temia enfrentar. Não porque temia os deuses, ela aprendera a respeitá-los e adorá-los desde que aprendera a falar e a andar. O que incomodava Hurit era a responsabilidade que pesava sobre suas costas. Precisava provar-se digna dela e não se sentia assim.

— O velho me pergunta aquilo que já sabe.
— Posso saber de tudo, mas gosto de ouvir. Prefiro quando são vocês que tomam as próprias decisões. Sabe que não pode recusar o chamado dos deuses, Hurit. Como veio Hoobamack1Deus da cura e das doenças, também conhecido pelos povos da região como o deus oposto ao Grande Espírito. Por minhas pesquisas, é o deus que mais ouvia as preces dos nativos e foi muitas vezes confundido com o Diabo, mas essa era uma leitura incorreta – os povos nativos não distinguiam deuses por bem e mal, como os brancos. em sua visão?
— Uma serpente.
— O que ele disse?
— Ele não disse nada.
— Então você aguarda para descobrir a mensagem? Por isso não me contou sobre a visão?

A jovem princesa permaneceu por alguns minutos em silêncio, fitando o fogo alaranjado. Olhou ao redor e a escuridão da noite ajudava a esconder o que ela não gostava de ver – a tribo dividida. O que antes era uma comunidade de homens e mulheres, de guerreiros e famílias, se tornou um loteamento que abrigava corpos sem espírito. Muitos dos homens já se haviam entregado aos vícios dos brancos, alguns deles trabalhavam na cidade e nas fábricas para ganhar dinheiro – e evitar morrer de fome. Outros continuavam a se lançar no mar em navios pesqueiros, mas não traziam o produto da pesca para suas famílias. A terra, que antes era deles, passara a pertencer ao governo dos Estados Unidos e lhes fora cedida – mas não em sua totalidade. E a comida, que estava cada vez mais escassa, tornara-se uma espécie de ração mensal. As raízes e vegetais abundantes foram parcialmente substituídas pela farinha branca, quase sempre bolorenta, e que só servia para engordar as crianças. A carne era rara e pouca.

— Eu não sei o que os deuses querem comigo. Não há espaço para novos powwowos2Powwow é palavra algonquina para xamã, lider espiritual dos povos da região. Até hoje, em Long Island, no território Shinnecock, há o festival Pow-wow que é aberto ao público e festeja a cultura do povo. nesse mundo, Wematin.
— Talvez sua missão não seja como a minha, Hurit. — O velho segurou as mãos juvenis nas suas. — Você carrega o dom de sua mãe, Hoobamack controla as doenças e suas curas, talvez este seja o seu papel nesse mundo. Mas não era apenas isso que eu pretendia lhe dizer, menina. Há mais. Eu também tive uma visão.

Hurit arregalou os olhos em surpresa. As profecias de Wematin eram sempre compartilhadas primeiro com o cacique, seu pai, e ele não falara nada naquela noite.

— Uma visão importante?
— Nela havia você. — O xamã abaixou-se e, com um graveto, traçou alguns desenhos no chão de terra. — Você e ele, o lobo branco. — Outro desenho indicou a presença do animal selvagem. — Vocês brincam e se estranham, mas o lobo está com você e sob seus cuidados.
— O que significa? Os deuses me enviarão um lobo?
— Os lobos e os Shinnecocks não são inimigos. Os lobos são adversários, Hurit. Nem sempre as mensagens são claras. — O homem ergueu seus olhos opacos pela cegueira e sorriu. — Mas há um lobo branco no seu futuro e, quando ele chegar, não haverá como evitá-lo.

O Sobrevivente e a princesa

Quando decidiu seguir seu irmão até os Estados Unidos das Américas, Emile McFadden esperava viver as aventuras que não tivera oportunidade de experimentar durante a juventude. Sempre recluso e fragilizado por seu estado delicado de saúde, o quarto filho dos McFaddens desejava conhecer outros países e pessoas, mas acabou envolvido em uma trama que culminou com seu corpo alvejado por tiros boiando no oceano Atlântico.

A jovem Hurit sabia que seu destino estava traçado desde o seu nascimento – ela era predestinada a substituir o xamã da tribo. Sua conexão com os deuses se desenvolveu desde tenra idade e ela aguardava o cumprimento de uma profecia, revelada em forma de visão, quando ela tinha 12 anos. Quando um homem branco é encontrado quase morto na costa do território dos Shinnecocks, ela descobre que destinos não são imutáveis e que a paixão é, quase sempre, irresistível.

O Sobrevivente e a Princesa encerra a série Amores em Kent com a história do amor improvável entre um nobre inglês e uma princesa nativa americana, que decidiram desafiar tudo e todos para viverem o seu felizes para sempre.

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