Show, don’t tell: a regra que toda escritora ama odiar (mas que precisamos usar).
Se você estuda teoria literária, sobre escrita, escrita criativa ou simplesmente gosta de chafurdar blogues de escritoras, já deve ter ouvido esse conselho: show, don’t tell. E, muito provavelmente, já revirou os olhos pensando: “lá vem mais uma pessoa repetir isso sem explicar direito”. Afinal, eu escrevo palavras. Claro que eu vou contar para as pessoas! Quem mostra é o audiovisual, certo?
Errado.
Hoje vamos comentar sobre o show don’t tell aqui no blog com base no que autoras e estudiosas literárias renomadas defendem — e, de quebra, mostrar (olha só) como aplicar na prática.
O que significa show, don’t tell?
“Mostrar” (show) significa permitir que a leitora experimente a cena junto com a personagem: os gestos, o silêncio, a respiração presa. Já “contar” (tell) é apenas dar a informação pronta: “ela estava com medo”.
Todas as autoras que discutem esse tema — de K. M. Weiland (Helping Writers Become Authors) a Joe Bunting (The Write Practice) — concordam: mostrar cria imersão, contar distancia.
Exemplo:
- Tell: “Ela estava triste.”
- Show: “Ela encarava a xícara de café frio, os olhos marejados, como se buscasse ali uma resposta que não vinha.”
Por que mostrar é melhor do que contar?
Quando você mostra, o leitor vivencia a cena: sente o frio na espinha, escuta o silêncio pesado, percebe a mão tremendo antes do beijo. Quando você conta, tudo se resume a algo como: “ela estava com medo” ou “ele estava nervoso”. Informativo? Sim. Impactante? Não.
Selecionei uma série de artigos da K M Weiland e outro tanto do The Write Practice e todos concordam em uma coisa: mostrar cria imersão, aproxima leitor e personagem, e dá drama à narrativa. Contar, por outro lado, pode deixar tudo superficial.
Mas contar também tem seu lugar…
Surpresa: “show, don’t tell” não é lei divina dogmática inquebrável. Nada é, principalmente na escrita. O site The Write Practice lembra que existem momentos em que contar é necessário. Por exemplo, quando você precisa avançar rápido no tempo, resumir algo sem importância ou dar contexto.
A chave é não deixar o tell (narrativa pura) dominar a história. Ele é útil em pequenas doses, mas o prato principal deve ser sempre o show.
Como identificar o tell disfarçado
Segundo K. M. Weiland (Helping Writers Become Authors), o tell costuma se esconder em três lugares:
- Emoções nomeadas diretamente (“ela estava triste”).
- Advérbios que tentam reforçar o verbo (“ele disse calmamente”).
- Parágrafos que resumem ação em vez de mostrá-la.
A dica dela? Na revisão, faça uma caçada aos advérbios e às emoções “explicadas”. Pergunte-se: como posso mostrar isso através de ação, reação ou diálogo? – e faça.
O poder dos cinco sentidos
Outra unanimidade: mostrar envolve os sentidos. Então, escreva apresentando sensações que representem todos os cinco sentidos e que provoque suas leitoras a sentir também. O cheiro da chuva, o gosto amargo do café frio, o som da porta batendo mais forte do que deveria. Quando a leitora é convidada a sentir junto, a cena ganha vida.
E não é só descrição — é causa e efeito. O suor na testa porque o personagem está ansioso, o nó no estômago porque algo terrível está prestes a acontecer. Mostrar é conectar emoção e ação.
Os cinco sentidos como aliados do show
- Visão: a sombra na parede, a roupa amassada.
- Audição: o rangido da porta, o silêncio pesado.
- Tato: o arrepio na pele, o calor da xícara.
- Olfato: o cheiro de chuva, de fumaça, de vinho derramado.
- Paladar: o gosto amargo do café frio, o doce da fruta madura.
Esses detalhes, quando bem usados, criam experiência compartilhada — e isso é revolucionário para quem escreve pensando na leitora como cúmplice da narrativa.
Tem mais. Mostrar é também sobre o quanto de drama estamos entregando na história.
No artigo Show, Don’t Tell: Inject Drama Into Your Writing, a ideia é simples: mostrar aumenta os stakes.
Contar que alguém está em perigo não dá o mesmo frio na barriga que ver a porta sendo arrombada, ouvir os passos se aproximando, sentir a respiração curta do personagem. Mostrar é o que transforma uma cena comum em uma cena dramática.
É a diferença entre:
- Tell: “Ela estava em apuros.”
- Show: “A maçaneta girou devagar. O coração dela disparou. Não havia mais saída.”
Como aplicar Show, Don’t Tell sem perder sua voz
- Escolha o que importa. Nem tudo merece cena completa.
- Use verbos fortes. Corte advérbios desnecessários.
- Foque no efeito emocional. Não diga que a personagem “tem medo”; faça a leitora sentir o medo.
- Mostre as consequências. O que muda na cena por causa daquela emoção ou ação?
- Respeite seu estilo. Mostrar não é copiar fórmulas; é potencializar sua voz narrativa.
E quando mostrar demais vira problema?
Exagerar também é erro. Mostrar cada microação do personagem (ela escovou os dentes, passou fio dental, se olhou no espelho, abriu o chuveiro…) pode entediar tanto quanto contar. Por isso, todas as autoras destacam: equilíbrio é tudo. Mostre o que importa, conte o que não merece cena detalhada.
Show, don’t tell não é uma prisão, é uma ferramenta poderosa de imersão que devemos usar quase sempre, mas não o tempo todo. Mostrar é envolver, contar é avançar, e o equilíbrio entre os dois é o que dá força à sua história.
Referências sugeridas para leitura:
