Ou será que não?

A resposta é sim, toda autora provavelmente já cometeu diversos erros no início da carreira, alguns mais adiante, e ainda cometerá muitos outros. Errar não é um problema, não reconhecer que somos suscetíveis a erros, sim. Porque, quando consideramos que somos capazes de falhar ou cometer equívocos na escrita, na criação dos mundos, na construção dos personagens, na edição, na publicação, no marketing… quer dizer que estamos sempre dispostas também a estudar muito para evitá-los.
Neste post, selecionei 5 erros comuns de escritoras iniciantes (ou nem tanto assim) — aqueles que todo mundo já deve ter cometido e que podem atrapalhar sua história. E claro: com uma boa dose de ironia, porque se não for para rir dos próprios tropeços, a vida de escritora perde metade da graça.
1. Head-hopping: o desastre do ponto de vista
Você já deve ter feito isso: está escrevendo uma cena, entra na cabeça da mocinha, depois pula para os pensamentos do mocinho, e de repente até o cachorro está filosofando. Na sua mente, parece natural, cinematográfico. No papel? Vira um caos narrativo.
Esse é o famoso erro de ponto de vista. Já falamos aqui no blog quando estudamos sobre a escrita em terceira pessoa e vamos reforçar agora: cuidado com o head-hopping!
O erro de ponto de vista cria distância entre a leitora e os personagens. Em vez de sentir a intensidade emocional de uma perspectiva única, a leitora fica confusa, tentando descobrir de quem é aquela voz, ou precisando voltar na cena para entender quem disse (ou pensou) o quê.
Por que é um problema? O ponto de vista é a lente pela qual a leitora vê a história. Trocar de lente sem aviso é como assistir a um filme com uma câmera tremendo e girando sem foco em nenhum dos personagens. Confunde tanto que às vezes a gente desiste.
Dica prática: escolha um ponto de vista e mantenha pela cena ou pelo capítulo inteiro. Se for terceira pessoa limitada ou primeira pessoa (sim, já vi head-hopping em primeira pessoa!), fique na cabeça de um personagem por cena. Se quiser onisciência, faça direito, deixando claro para a leitora que não há um ponto de vista fixo porque a narradora tudo vê e tudo sabe (não é só jogar pensamentos soltos).
2. Despejar informações demais no início
Quem nunca sucumbiu à tentação de contar tudo logo de cara: a infância dos protagonistas, o histórico da cidade, o que cada um gosta de comer, falar do clima… aí vem a introdução de duzentos personagens diferentes, todos com seus nomes, sobrenomes e títulos (ou profissões).
Parece necessário para “situar a leitora”, mas o que você realmente criou foi um info dump: uma descarga de informações que mais confunde do que informa.
Um dos erros mais comuns de escritores iniciantes é achar que a leitora precisa de todos os detalhes logo na primeira página.
Spoiler: não precisa.
Por que é um problema? Histórias precisam de movimento, de seguir para frente o tempo todo. Se tudo que acontece no início é uma descarga agressiva de informações, a leitora não vai entender nada e provavelmente vai procurar outra coisa para ler.
Dica prática: comece com uma informação bombástica, eventualmente life changing, ou que amarre a leitora na primeira frase (de preferência). Esse é o gancho. O resto (contexto, passado, explicações) você pode (e deve) inserir em doses homeopáticas ao longo da narrativa.
3. Escrever bonito demais e não entregar conteúdo nenhum
Você quer provar que sabe escrever, afinal, é escritora. Escreve romance de época? Pois enfia floreio e bordado na escrita, entope o texto de palavras elegantes retiradas de um dicionário (algumas nem você conhecia até então) e cada parágrafo se torna um fim em si mesmo.
O resultado é a temida purple prose — texto tão florido que ofusca a própria história.
Por que é um problema? Quando a leitora percebe a autora em vez de se perder no enredo, a imersão acaba. Em vez de viver a cena, ela está julgando sua escolha de palavras (ou procurando no google porque não entendeu nada do que você disse).
Exemplo caricato: Ela caminhava languidamente, tal qual lírio solitário se erguendo contra o breu cintilante do crepúsculo vespertino.” Tradução: Ela andava devagar no fim da tarde.
Dica prática: menos é mais e essa expressão é quase sempre muito provavelmente verdade o tempo todo. Escreva para que a leitora mergulhe na história, não para que perceba sua habilidade com advérbios.
4. Muitos personagens, nenhum protagonista
Você criou um elenco inteiro de personagens incríveis. Todos falam, todos têm histórias complexas, todos querem tempo de palco para contar seus dramas para a leitora. Só que a leitora precisa de protagonistas para se apegar, principalmente em livros de romance.
A gente tem que entregar o casal. O mocinho e a mocinha que ficam juntos no final. Sem isso, a narrativa se espalha como novela cheia de núcleos e no final a gente só vê um amontoado de secundários e o holofote não está sobre nenhum deles ao mesmo tempo que sobre todos eles.
Por que é um problema? Leitoras se conectam emocionalmente quando sabem quem é “a pessoa” da história. O protagonista (que nos romances são dois, ainda por cima!) atrai a história para si. Conta a história que a leitora quer ler. Sem esse eixo, a trama fica sem centro de gravidade.
Dica prática: secundários são secundários. Por mais incríveis que eles sejam, eles são suporte para o casal protagonista e não podem brilhar mais do que eles. Se isso aconteceu, seu mocinho ficou fraco e sua mocinha, sem sal.
5. Falta de stakes (ou stakes confusos)
Todo enredo precisa de uma pergunta central: o que o personagem tem a perder se falhar? Quando essa resposta não está clara ou não faz muito sentido, a história perde força. Sem stakes definidos, o leitor não entende por que deve se importar com aqueles personagens ou com o que eles fazem.
Por que é um problema: se o casal ficar junto ou se separar não provoca nenhuma consequência na história, ou se a missão pode dar errado sem mudar nada na vida do dos personagens, não existe tensão narrativa. A leitora simplesmente não sente urgência e acaba se desinteressando pelo que cada personagem tem a contar. Pior, pode achar que todas são chatas e mimadas que não tomam decisões fáceis na vida.
Exemplo clássico: imagine um romance em que a mocinha não tem nada em jogo — ela tanto pode casar com o duque quanto pode virar costureira, e em ambos os casos a vida dela segue maravilhosa sem ser afetada. Tudo depende da escolha dela e tudo dará certo qualquer que seja essa escolha.
Nenhuma emoção, né?
Agora, se ela casar com o duque, salva a família da ruína, mas se recusar, perde tudo o que conhece… aí temos drama, trama, enredo, história para contar!
Dica prática: sempre se pergunte: O que acontece se essa personagem disser sim ou não para o que se apresenta para ela? Se a resposta for “ela não tem nada a perder”, os stakes estão baixos. Ajuste até que a escolha seja dolorosa, urgente e transformadora.
Conclusão: rir é melhor do que chorar
Todos esses erros de escrita são normais. Todo mundo já exagerou no ponto de vista, despejou informações no início, quis mostrar erudição na prosa, enfiou personagens demais ou deixou que eles não tivessem muitos dramas na vida.
A diferença entre autoras iniciantes e experientes é que quem já tem muitos anos de estrada aprendeu a reconhecer e corrigir esses erros mais rapidamente. Então, se você se viu em algum desses pontos, relaxe: é só mais uma etapa no caminho (que nem sempre é florido e cheiroso).
E fica a dica da Tati aqui: escrever não é sobre ser perfeito de primeira. É sobre errar, editar, errar mais um pouco, editar outro tanto e continuar contando as melhores histórias que pudermos.
Agora me conta: qual desses erros você já cometeu ou já viu por aí?
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